Cairo Santos, o Kicker da Geração Y

Cairo Santos, o Kicker da Geração Y

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segunda-feira, 28 novembro 2016
Esportes Americanos

Adam Vinatieri acertando o Field Goal decisivo do Super Bowl 36 para o New England Patriots, que conquistava o seu primeiro campeonato da história, ao bater no Saint Louis Rams por 20 a 17 no Lousiana Superdome, em New Orleans. Foto: NFL

Poucas funções no futebol americano são tão ingratas como a do Kicker. Ele pode, em uma jogada, dar a vitória para o seu time e ser reverenciado como herói ou perder o jogo e ser taxado de vilão. Vários exemplos, ao longo da história, podem ser colocados, tanto para o bem, quanto para o mal.

Adam Vinatieri deu os dois primeiros Super Bowls da história do New England Patriots ao acertar Field Goals faltando menos de 7 segundos para o final das partidas contra St. Louis Rams (Super Bowl 36) e Carolina Panthers (Super Bowl 38). Matt Bahr, Kicker do New York Giants na temporada 1989-1990, acertou 5 Field Goals e fez os 15 pontos do time contra o San Francisco 49ers, de Joe Montana e Jerry Rice, na final da NFC, em pleno Candlestick Park (casa do 49ers), levando os comandados de Bill Parcells ao surpreendente titulo da divisão e, consequentemente, ao Super Bowl 25, contra o outro favorito, Buffalo Bills. Porém, os Giants novamente derrubaram os favoritos, mas com um lance que ficou eternizado para o Kicker de Buffalo, Scott Norwood. Dessa vez para o mal.

Faltando menos de 2 minutos para o termino da partida, Norwood tinha a missão de acertar um Field Goal de 47 Jardas, considerado fácil para os parâmetros da NFL, e colocar a equipe do Buffalo Bills a um passo do título daquela temporada. Entretanto, Scott errou e o time acabou perdendo o jogo por 20 a 19. O jogador não só sentiu o peso do erro no jogo, como é lembrado até hoje pelos três pontos não marcados.

Scott Norwood errando o Field Goal de 47 jardas para o Buffalo Bills, o que acarretou a perda do Super Bowl 25 para o New York Giants por 20 a 19, em jogo realizado no Tampa Stadium, na Flórida. Foto: NFL

Outro Kicker que passou pelo mesmo sentimento foi Billy Cundiff. Na temporada 2011-2012, ele era jogador do Baltimore Ravens, e tinha aos seus pés, a chance de empatar o jogo contra o New England Patriots, pela final da AFC, no Gillette Stadium (casa dos Patriots). O Field Goal era fácil, 32 jardas. A partida se encaminhava para o seu final, tendo um pouco mais de 70 segundos no relógio. Porém, Cundiff errou, levando a torcida do Pats abaixo, e sua carreira também. Logo após o erro, Billy girou por vários clubes, não conseguindo fincar espaço em nenhum, e acabou se aposentando precocemente em 2015.

Em suma, nenhuma pessoa que sonha em jogar futebol americano pensa em ser Kicker um dia. E isso são os próprios jovens americanos que afirmam. Agora imagine um jogador do exterior, vindo de um país que tem pouco know-how no esporte, se atrever a jogar nessa posição. Esse jogador existe, e vem chamando a atenção pela sua ousadia, precisão e foco nos momentos decisivos de um time que vive sob a pressão da torcida que não comemora uma ida ao Superbowl desde 1970 (ano que ganhou o torneio). Ele é brasileiro. Ele é Cairo Santos, o Kicker da Geração Y.

 

Da terra da laranja para a universo da bola oval. 

 

Cairo Santos posando para a foto com o uniforme da Universidade de Tulane. Sua passagem por lá foi fundamental para sua carreira deslanchar. Foto: Mundo Brasil

Cairo Santos tem 25 anos, nascido na cidade de Limeira, interior de São Paulo, terra conhecida pelo seus longos e extensos laranjais. Porém, o seu futuro reservava algo muito diferente do que colher laranja. Aos 16 anos, Cairo foi estudar na High School de Saint Augustine, localizada no estado da Flórida, tendo o interesse de se formar nos Estados Unidos e jogar Soccer. Isso mesmo, futebol. Mas nada melhor do que uma bela bolsa de estudos em uma das melhores universidade da Louisiana para mudar esse objetivo no campo desportivo.

Anos depois, o menino de Limeira foi estudar, com um belo desaperto no bolso, na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, com uma diferença. Ao invés do soccer, a vida de Cairo mergulhou no futebol americano. O sucesso foi imediato. Em 2012, o brasileiro conseguiu acertar um Field Goal de 57 Jardas, o maior na história da Universidade até então. Fora isso, ele ganhou o premio Lou Groza Award, dado para o melhor Kicker da temporada.

Suas boas aparições começou a atrair os olhares de algumas franquias da NFL. Porém, a incerteza pairava. As justificativas eram simples. Cairo joga em uma universidade de pouca tradição entre o corpo de jogadores da NFL. Além disso, ele é Brasileiro. E o que um brasileiro pode conhecer de futebol americano? Pensavam. A resposta veio em 2014, após uma ousada contratação de um time que não tinha como característica ousar, até a chegada de uma velha raposa da NFL.

 

Cairo, Smith e Charles. O trio Reid. 

 

Andy Reid concedendo entrevista coletiva nas vésperas de disputar o Super Bowl 39, no ano de 2005, quando ainda era treinador do Philadelphia Eagles. Reid e seus comandados acabaram saindo derrotados por 24 a 21. Foto: NBC Sports

Em 2013, a equipe do Kansas City Chiefs buscava um novo Head Coach (Treinador), depois de realizar uma das piores temporadas de sua história no biênio 2012-2013, ganhando somente duas partidas e perdendo quatorze. John Dorsey, General Mananger da franquia, observava com atenção a saída de Andy Reid do Philadelphia Eagles, equipe que dirigiu por 13 anos. Após sua dispensa da equipe da Pensivânia, Dorsey imediatamente correu atrás de Reid, efetuando sua contratação dias depois. De lá pra cá, o time mudou. A franquia acumula, até esse momento, 39 vitórias, 20 derrotas e duas aparições nos playoffs nas ultimas 3 temporadas (a chance de Kansas ir para os playoffs nessa atual temporada é enorme também). Andy trouxe equilíbrio, misturado com muita ousadia e coragem. Esse cenário favoreceu Cairo, que aos poucos, pode mostrar o seu valor.

Dirigindo o Eagles, Reid ficou conhecido por montar um trio ofensivo de bastante valia, equilíbrio, frieza e astucia, contando com o quaterback Donovan McNabb, o Wide Receiver Brian Westbrook e o Kicker David Akers. Com os três, a equipe de Philadelphia chegou a cinco finais de conferencia nacional, apareceu oito vezes nos playoffs e chegou a um Superbowl (temporada 2004-2005, perdendo para o Patriots por 24 a 21). Andy Reid, aos poucos, implementou a mesma filosofia em Kansas City, construindo seu trio de ferro. O Quaterback Alex Smith, o Running Back Jamaal Charles (que esta atualmente contundido) e o Kicker Cairo Santos.

Cairo Santos conversando com sua equipe antes da batida do Field Goal que garantiu a vitória do Kansas City Chiefs contra o Denver Broncos, na madrugada de domingo para segunda (27 para 28/11) pelo placar de 30 a 27. Foto: NFL

A confiança sobre Cairo o motivou ainda mais em busca de bons números dentro da liga. E isso vem sendo mostrado desde que chegou, em 2013. Atualmente, ele tem um percentual de 84,2% de acertos em tentativas de Field Goal, acertando 80 de 95 possíveis. Na pós temporada (playoffs), Cairo Santos segue invicto, tendo acertado os 5 Field Goals possíveis e os 5 Extra-Points. Nesse quesito, em temporada regular, o menino de Limeira tem 97% de acerto, acertando 98 de 101 possíveis, mostrando sua importância dentro do time, inclusive em momentos decisivos, como o Field Goal que deu a vitória para o Kansas City Chiefs jogando contra o seu grande rival e atual campeão do Superbowl, Denver Broncos, na casa do adversário, por 30 a 27, colocando a equipe numa boa posição para garantir sua qualificação nos playfoffs e quebrando um tabu de 21 anos que não vencia o Broncos fora de casa duas vezes consecutivas (a ultima vez foram nas temporadas 1994-1995 e 1995-1996).  Porém, Cairo Santos não está conquistando apenas seus companheiros, mas o torcedor Brasileiro.

 

Cairão da Massa, o espelho da esperança.  

 

Além de ter sua própria Seleção, o Brasil é um dos países que mais consomem produtos voltados ao Futebol Americano. Foto: CBFA

O Brasil vem sendo o país que mais cresce no cenário do futebol americano nos últimos anos. Atualmente, a nação canarinho está atrás somente do México e Estados Unidos em relação a consumo de produtos (transmissões de jogos, compra de jerseys, entre outros) da NFL. Antes de Cairo, o crescimento já era expressivo. Pós Cairo, ficou ainda mais. Já é possível encontrar inúmeras lojas que vendam bonés, capacetes, camisetas, chaveiros, canecas, jerseys e acessórios em geral das grandes franquias do futebol americano. A NFL já cogitou, inclusive, realizar sua edição do Pro Bowl na cidade do Rio de Janeiro.

Em várias regiões do país, são organizados vários torneios de FA (abreviação de futebol americano). Se calcula que exista mais de 230 times no Brasil. O número de seguidores do esporte aumenta a cada ano, que não só assistem, mas praticam a modalidade.

O jovem Kicker Brasileiro recebendo a premiação Lou Groza Award, por ser o melhor Kicker da temporada 2012/2013 do College Football, quando ainda jogava pela Universidade de Tulane. Foto: FOX

Antes de Cairo Santos o futebol americano era visto mais como uma atração do que pratica. Hoje, as duas características praticamente se igualam. É absolutamente normal qualquer pessoa caminhar por parques, ginásios e conferir varias equipes realizando treinamentos.

 

Existem muitos passos a serem dados para o futebol americano no Brasil se transformar em uma potencia. Mas uma coisa é certa. A ida de Cairo Santos para a NFL e suas excelentes aparições colocou o Brasil, com maior evidencia, no mapa da National Football League, criando uma legião ainda maior de fãs, que nutrem a alegria de ver um brasileiro na competição e, ao mesmo tempo, sonham em um dia estar em seu lugar.  Nunca o Futebol Americano foi tão forte como agora.

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